O Rei do tempo
Era uma vez um viajante que caminhava pelo grande deserto de neve. Tudo era imenso, triste e solitário.
O viajante parou para descansar um pouco à beira do caminho e pensava, exausto: “Devo chegar antes do anoitecer à primeira aldeia deste deserto gelado.”
Como se sentia fatigado, fechou os olhos por alguns minutos, mas logo foi despertado por uma voz estranha, um pouco distante, mas infinitamente penetrante:
- Você está muito cansado – dizia a voz. – Venha comigo e repouse um pouco. Todo viajante repousa em meu palácio.
A voz era de um velho mais que centenário, mais que milenar. Ele não tinha nem idade nem cor. Ele era mais cinza que o céu de inverno e mais branco que a neve.
O viajante olhou-o atentamente e observou que o velho tinha na testa um magnífico diadema real e, apesar da idade, possuía a força e a leveza da juventude.
- Entre em minha casa. Meu palácio é mais rico e belo que o mais precioso de todos os palácios do mundo. Veja!
O viajante, impressionado, viu aparecer diante dele um palácio que parecia construído de cristal. Através de seus muros transparentes e brilhantes, podiam-se perceber tesouros inesquecíveis, flores de uma beleza indescritível, pedras preciosas que reluziam em todas as paredes. O palácio cintilava! E o viajante, impressionado, perguntou:
- Que riquezas são estas? Poder-se-ia comprar o mundo com o que possuis, ó Rei!
O velho sorriu e disse:
- É verdade, viajante. Aqui há tesouros de tal valor, que poderiam comprar o mundo. Estas flores e estas pedras preciosas que você vê são a única riqueza verdadeira do mundo: são as idéias do mundo. Quando uma ideia já viveu seu tempo, eu a recolho em meu reino. Aqui, ela dorme o sono do gelo, para recuperar o brilho e a beleza que perdeu entre as pessoas. E ela dorme até o momento em que seu destino esteja pronto para se cumprir novamente, até o momento em que uma alma humana deite seu olhar sobre ela com um pouco de amor. Então, com o calor da respiração dessa alma humana, o gelo se derrete e a ideia revive, jovem, cheia de força. E todos no mundo gritam em torno dela: “Eis uma ideia nova!” Mas estão enganados: a ideia não é nova, ela já existia, mas, como seus ancestrais a rejeitaram com desprezo, ela dormiu no palácio de gelo.
No entanto infeliz é o homem que desperta uma ideia forte, pois na verdade, será possuído por ela; não será o seu senhor.
- Onde está teu palácio, Rei? Em que país Vossa Majestade habita? Onde é esse reino?
Mas o rei sorriu e não respondeu nada.
Tudo ficou cinza diante do viajante, e seus olhos começaram a se esfumar. Ele perguntou novamente:
- Quem és tu, ó Rei?
E, de longe, ele escutou a resposta apenas compreensível:
- Eu sou o tempo.
“ O Ofício do Contador de Histórias: perguntas e respostas, exercícios práticos e um repertório para encantar / Gislayne Avelar Matos, Inno Sorsy. – São Paulo: Martins
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